Abrindo a janela pro sol entrar

Quando comecei a fazer terapia, uma das comparações que fizemos juntas – eu e a psicóloga – foi a de que nossa mente é um sótão, cheio de coisas encaixotadas. Para resolver a bagunça da nossa mente, era preciso desembalar, tirar a poeira, abrir caixa por caixa, até mesmo as mais escondidas, para começar uma faxina.

No início (na época, eu devia ter uns 20 e poucos anos), foi doloroso mexer com tudo aquilo que estava lá, guardado. Jogar umas coisas fora. Realocar outras. Fomos fazendo uma limpeza da boa, ano após ano, até que a maioria das coisas ocupou bons lugares.

Mas a gente é bicho teimoso, vê o sótão arrumadinho e começa encaixotar cacarecos novamente. E, às vezes, precisa de uma nova faxina.

Nos últimos anos venho olhando novamente para o meu sótão. Começou com um incômodo, curiosidade, vontade de recuperar coisas antigas que eu acreditava que já estavam no lugar certo. Sozinha, fui buscando algumas caixas, abrindo, olhando com carinho para coisas que estavam esquecidas. Eu queria trazê-las de novo para o meu dia a dia; coisas que nunca deveriam ter saído de cena.

Eu havia encaixotado parte de quem eu ‘queria ser quando crescesse’. Havia deixado de lado alguns sonhos, algumas atitudes, e agora elas estavam me fazendo muita falta. Trazer de volta estas partes de mim – além de esvaziar o sótão – deixaram minha vida mais leve e fluida.

E daí veio o divórcio. O que fazer com anos de relacionamento? Jogar fora? Encaixotar pra sempre? Guardar? Botar fogo?

Minha primeira opção foi armazenar tudo de qualquer jeito, bagunçado, e deixar de lado. Ficaram largadas, ocupando montes de espaço, atrapalhando a organização das minhas ideias. De vez em quando, eu tropeçava em alguma coisa; às vezes machucava, às vezes eu jogava fora, outras vezes devolvia no lugar para cuidar daquilo em um outro momento.

Mas começaram a me incomodar. Não fazia sentido não lidar com a bagunça. E eu recomecei a faxina. Revi cada coisa guardada, ora com carinho, ora com aversão. Fui classificando, catalogando, jogando pilhas e pilhas de coisas fora, guardando uma ou outra recordação feliz e importante, para ocupar um novo lugar na minha história.

Foi intenso de novo, como da primeira faxina. Doeu às vezes, um misto de frustração por não ter dado certo, mas com sentimentos libertadores. Fui limpando tudinho, com coragem e peito aberto.

Há alguns dias, uma enxurrada de acontecimentos aceleraram o processo. Deve ser a tal sincronicidade do Universo. Como um raio, minha mente recebeu um clarão inesperado de entendimento. Eu estava pronta para finalizar este ciclo.

E aceitar: que não, a vida não é como a gente quer – mas pode ser melhor do que a gente espera. Que não, não vale a pena guardar nada empoeirado se não vai te servir de nada. Que sentimentos ruins devem ser lavados da alma com água de cheiro e oração, devem ir embora, porque senão emboloram, criam mofo e doenças.

De repente, de um dia pro outro, olhei para o meu sótão. Eu queria que vocês vissem a lindeza que ficou. Dá pra alguém morar lá. Ficou vazio e espaçoso, livre de tantas inutilidades.

Estou abrindo as portas e janelas todos os dias. O sol tem entrado com mais frequência. Estou feliz por ter conseguido e os dias têm sido mais iluminados. Estou sentindo cheiro de mudanças, de café fresco, de brisa do mar.

Não quero mais guardar nada desnecessário por aqui, só o que é realmente meu. Ao Universo, sou grata. Estou pronta e aceito tudo o que a mim for destinado.

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