A mãe “possível”

Eu era uma mãe muito mais bacana antes de engravidar. Eu ia parir por vias normais, amamentar por três séculos, usar fralda de pano, dar somente alimentos orgânicos, queimar a televisão (tablets apenas depois dos 18 anos) e proteger a criança dentro de uma bolha, longe do consumismo e do Mc Donalds.

Quando eu ainda não tinha engravidado, eu era uma mãe muito mais consciente, amorosa, paciente, tranquila e feliz. Faltava apenas um detalhe: a criança.

Só que eu tenho gêmeos.

E desde que eles nasceram aprendi a ser uma mãe “possível”. Claro que existem as super mulheres que conseguem aderir à quase tudo o que eu tinha me proposto, não sei nem a que preço e de qual forma. Também não quero saber – parei faz tempo com as comparações.

Ter consciência de ser a melhor mãe “possível”, dentro e além dos meus limites e esforços, me livrou de um monstro chamado culpa. Não tenho culpa, nenhuma, de nada. E isso é libertador.

Sou aquela mãe de cesárea que amamentou mal e porcamente por menos de três meses – e que em nome da sanidade mental e contra o esgotamento emocional e físico, adotou a mamadeira. Sou aquela que congelava papinha, que deu chupeta, que esperou o bebê chorar um pouquinho para ver se ele parava, antes de levantar de madrugada.

Aquela mãe que chega sempre no limite do horário na porta da escola, que às vezes não faz a lição de casa no dia porque brincar está mais legal. Aquela que enfia as crianças na bacia e deixa eles por dias no chuveiro, só pra poder ter uns minutos a mais cuidando da louça (ou do Facebook).

Bem daquelas mães que, agora em carreira solo, coloca as crianças pra dormir e troca o pijama pelo salto para sair e tomar uma cerveja com as amigas. E escuta rock a caminho da escola, ensinando às crianças a diferença entre Bon Jovi e Black Sabath.

Daí, agora vejo algumas páginas bem xiitas de mães contra tudo: contra a lactose, contra o consumismo infantil, contra o danoninho, contra o Discovery Kids. E eu fico pensando se eu estou tão errada por não ser contra nada. Aqui em casa eles assistem TV (e têm tablets, apesar de estarem há alguns meses sem bateria) e brincam no quintal – moramos em uma chácara. Eles adoram Mc Donalds (que agora, morando no interior, virou passeio) e adoram frutas, legumes e saladas. Tomam Coca-Cola e suco, comem Fandangos e brócolis, gostam de ir ao shopping na loja de brinquedos e não fazem escândalo se “hoje a mamãe não tem dinheirinho”.

De tudo mesmo, a única coisa que eu sou contra é a falta de educação e a falta de limites. Crio eles assim, desse jeitão, e eles estão se tornando pessoas bacanas, empáticas, questionadoras e cheias de opção. Prefiro que eles vejam em mim a mãe que ajuda a escolher – e que também erra, fala palavrão e surta. Uma mãe da vida real, que ama os filhos e ama a si mesma, sem uma autocobrança exagerada e sem peso extra.

Antes de engravidar eu era uma mãe bem hipócrita. Hoje, sou uma mãe que condiz exatamente com a mulher que eu optei por ser. Ainda bem.

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